Muito mais do que a voz

Conhecida pelos cuidados com a fala, a fonoaudiologia trata a comunicação em todos os níveis de atenção à saúde

Fono na midia

Com carinho, ela segura o bebê no colo e, em movimentos cuidadosos, coloca-o sobre a maca. Aproxima algo que se parece com um fone de ouvido da orelhinha do recém-nascido; um som inaudível para quem observa é emitido e logo algumas ondas aparecem no aparelho — a resposta do teste ocorre mesmo que o bebê esteja dormindo. Todos os dias são muitos os recém-nascidos que passam pelas mãos da fonoaudióloga Taíssa Xavier de Luna, na Maternidade Nossa Senhora de Nazareth, em Boa Vista (Roraima), a única do SUS no estado; ela conta uma média de 20 a 25 crianças que fazem com ela diariamente o teste da orelhinha. Mas cada bebê é único a seus olhos. Com o mesmo zelo, Taíssa sorri enquanto segura novamente a criança no colo e entrega-a para o pai ou a mãe. Em seguida, passa algumas orientações rápidas sobre higienização do ouvido ou amamentação e aguarda a próxima família.

O teste da orelhinha — rápido, indolor e sem contraindicação — é obrigatório em todos os hospitais e maternidades do Brasil desde 2010 e, como explica Taíssa, é fundamental para detectar precocemente algum tipo de perda da audição. O exame, que começou a ser implantado no SUS em 2006, abriu um novo campo de atuação para os fonoaudiólogos na saúde pública, não apenas em ações de reabilitação e tratamento, mas também como agentes de prevenção e proteção à saúde. “Quanto mais cedo iniciar a reabilitação, menores os impactos negativos na comunicação dessa criança”, ressalta a “fono” — como a profissão carinhosamente é chamada. O teste é feito a partir das 24 horas de vida até o primeiro mês e, mesmo que seja observada alteração, não quer dizer que o bebê tenha alguma perda auditiva. Nesse caso, um novo exame é feito de 10 a 15 dias e, se a resposta for confirmada, o bebê então é encaminhado para o Hospital da Criança de Roraima, mantido pela prefeitura, para ser examinado por um médico otorrinolaringologista.

A fonoaudióloga nascida em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foi trabalhar com crianças recém-nascidas em 2013, quando passou para um concurso em Boa Vista. Aceitou o risco de viver em outro estado, longe da família, mas conta que foi bem acolhida desde o primeiro dia de trabalho. “Vim para o Norte com o coração aberto, sem expectativas e sem medo”, relata. Na maternidade, ela já trabalhou na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal, na orientação para as mães sobre amamentação e com o teste da orelhinha. “Sou completamente apaixonada pela minha profissão e por possibilitar orientações simples, mas que fazem toda a diferença no sucesso da amamentação dos bebês”, confessa, ao ressaltar que “o que parece pouco para nós, pode ser muito para o usuário”. “Às vezes a mãe só precisa de alguém que a escute, que a ajude numa dificuldade”, ressalta.
Profissão geralmente associada aos cuidados com a voz, a fonoaudiologia vai muito além, ao abranger todas as questões da comunicação humana, desde a fala até gestos, expressões faciais e corporais, escrita, audição e a própria organização do pensamento. A carreira está presente em cuidados de saúde que vão dos primeiros instantes de vida até a velhice: além de fazer o teste da orelhinha e auxiliar as mães na amamentação, esses profissionais colaboram com a aprendizagem e a educação, tratam distúrbios de comunicação, atuam para diminuir o risco à saúde auditiva de trabalhadores, ajudam na recuperação de vítimas de acidentes e assistem pessoas idosas, com tratamento e reabilitação. “Ainda tem-se a ideia de que a fonoaudiologia cuida apenas de distúrbios de fala, mas ela vai muito além”, explica Taíssa, ao enfatizar que a área abrange especialidades voltadas para a fala, a motricidade orofacial (de órgãos e músculos necessários à respiração, mastigação, deglutição e expressão facial), audição, leitura, escrita, fluência, aprendizagem, saúde coletiva, entre outras.

Do indivíduo ao coletivo

Os saberes e a prática do fonoaudiólogo se destinam a todos os ciclos de vida, desde a gestação até idosos, como esclarece a professora do Curso de Fonoaudiologia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), Maria Teresa Cavalheiro, que também atua na Atenção Básica em Mogi Mirim, município a cerca de 150 quilômetros de São Paulo. “O fonoaudiólogo tem papel importante em toda a Rede de Atenção à Saúde e nas diferentes políticas públicas dirigidas a grupos e necessidades específicas”, enfatiza. Segundo ela, a profissão — regulamentada no Brasil desde 1981 — desenvolve ações de promoção, proteção e recuperação relacionadas à audição e equilíbrio, voz, fluência, articulação da fala, linguagem oral e escrita, respiração, mastigação e deglutição.

“Sua inserção na saúde pública se tornou mais visível a partir da implantação do Sistema Único de Saúde (SUS), que contribuiu para a mudança na concepção de saúde e o entendimento de que a integralidade pressupõe a participação de diferentes categorias profissionais”, pontua. Fonoaudióloga desde 1977, Maria Teresa, que é também mestre em Psicologia Escolar e especialista em Saúde Coletiva, destaca que a comunicação humana é fundamental para o exercício da cidadania e a qualidade de vida. Segundo ela, a inserção dessa profissão no SUS ocorre, com maior frequência, na Atenção Especializada, mas a fonoaudiologia tem aprofundado a reflexão sobre seu papel na Atenção Básica.

Segundo Maria Teresa, para além do consultório, a atuação do fonoaudiólogo na saúde pública se fortaleceu com a Estratégia Saúde da Família. “A criação dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (Nasf), em 2008, foi um marco importante por reconhecer a necessidade de participação de outras especialidades e categorias profissionais da área de saúde, para a garantia da integralidade e resolutividade da Atenção Básica”, pondera. O Nasf é formado por uma equipe multiprofissional que atua de modo integrado com as equipes de Saúde da Família. O novo campo de atuação fez com que as práticas desses profissionais, que apenas priorizavam o cuidado com o indivíduo, passassem a se preocupar também com a saúde coletiva. “Como membro do Nasf, o fonoaudiólogo precisou repensar sua prática, muito marcada por ações individuais, com foco na patologia e ênfase no núcleo profissional, e desconectadas das condições de vida e saúde da população”, explica.

Do tratamento de distúrbios da fala à prevenção e promoção de saúde. Ao ampliar sua atuação, na Atenção Básica, o fonoaudiólogo acompanha as questões de saúde da população de determinado território referentes à comunicação humana. Realiza visitas domiciliares, participa de grupos educativos com gestantes, crianças e pessoas com hipertensão e diabetes e garante o acesso das famílias às ações de prevenção e tratamento. “Ainda na Atenção Básica, o fonoaudiólogo participa das equipes de ‘matriciamento’, planejando ações que contribuam para organizar uma linha de cuidado contínua”, destaca. Na Saúde da Família, esses profissionais também acompanham o desenvolvimento infantil, orientam pais e cuidadores nas escolas e atendem gestantes.

Cuidados desde a maternidade

Na maternidade pública de Roraima, em que Taíssa trabalha, a equipe de 10 fonoaudiólogos desenvolve ações de prevenção e promoção de saúde e está presente em diversos espaços. Na UTI neonatal, o “fono” atende os recém-nascidos prematuros que apresentam dificuldade de sucção (movimento que permite que a criança sugue o leite materno), além de incentivar as mães no aleitamento exclusivo, evitando o uso de fórmulas artificiais. Taíssa conta que a maternidade faz uso do método canguru, através do contato pele a pele com o bebê, que ajuda a reduzir o tempo de internação dos recém-nascidos de baixo peso, estimulando a participação dos pais durante os cuidados médicos e fortalecendo os vínculos. “Na UTI neonatal contamos com uma equipe multiprofissional que conta com fonoaudiólogos, pediatras, fisioterapeutas, assistentes sociais e psicólogos”, pontua.

Outra parte da equipe orienta as mães com dificuldade de amamentar. “As orientações previnem o desmame precoce, o uso de bicos artificiais e fórmulas e garante assim que o bebê tenha o trabalho muscular que o seio materno exige”, explica Taíssa. Por ser a única maternidade pública de Roraima, a Nossa Senhora de Nazareth também é procurada por famílias que tiveram seus bebês em outros hospitais do estado para fazer o teste da orelhinha e ter o suporte do Banco de Leite Humano, que acolhe, orienta e incentiva a doação de leite materno — trabalho que também conta com o apoio da equipe de “fono”.
Já o teste da orelhinha — conhecido como Triagem Auditiva Neonatal — é outro trabalho desses profissionais que ajuda a prevenir e tratar problemas na comunicação. “Antigamente só se descobria que uma criança era surda com cinco ou seis anos de idade, quando já era tarde para iniciar a reabilitação”, aponta Taíssa, ao lembrar que a fase mais importante para o desenvolvimento da linguagem vai dos seis meses aos três anos de vida. “O teste identifica precocemente perda auditiva no recém-nascido, para que seja realizado o diagnóstico e a reabilitação de forma precoce e possibilitar o desenvolvimento da linguagem sem maiores prejuízos”, acentua. Entre as possíveis formas de tratamento, estão o uso de aparelhos de amplificação ou implante coclear e terapia fonoaudiológica — os bebês que têm alguma suspeita identificada no teste da maternidade são encaminhados para tratamento no SUS.

Ainda assim, Taíssa relata que a equipe de fonoaudiólogos da maternidade não tem o retorno se essas crianças deram continuidade ao tratamento. “Em Roraima não existe uma rede de Atenção à Saúde Auditiva, com referência e contrarreferência; por isso, a gente não sabe o que aconteceu depois”, pontua. Ela também destaca a sobrecarga da equipe por ser a única maternidade do SUS no estado. “O ideal seria ter outro serviço que também realizasse a triagem, pois o teste fica sobrecarregado”, reflete. Segundo ela, os desafios de seu cotidiano profissional são a conscientização das mães em relação à importância da triagem auditiva e a falta de capacitação continuada em relação ao teste.

A fonoaudióloga que mergulhou no desafio de deixar seu estado e se mudar para Roraima conta que trabalhar no SUS em Boa Vista possibilita o contato com outras culturas e nacionalidades. “Atendemos pacientes vindos de comunidades indígenas (Yanomami, Wapichana, Macuxi, Wai Wai, Xirixana, entre outros), assim como também recebemos pacientes vindos da Venezuela e da Guiana Inglesa, países que fazem fronteira com o nosso estado”, relata. Segundo ela, é preciso quebrar a barreira do distanciamento e “ter amor pelo que fazemos”. “É importante praticarmos a empatia e a humanização todos os dias. Com a quantidade de pacientes que temos que atender, é muito fácil cair na automatização. Por isso é preciso estar atento todos os dias”, acredita.

“Fono” no SUS

O ensino de fonoaudiologia voltado para o SUS era muito incipiente até 2002, quando foram publicadas as Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Graduação (DCN), como aponta Maria Teresa Cavalheiro — o primeiro currículo da profissão foi definido ainda nos anos 70, antes mesmo de seu reconhecimento formal. Mesmo com a mobilização dos conselhos profissionais, para modificar os projetos pedagógicos dos cursos, ainda há um déficit na formação voltada para a saúde coletiva: na visão de Maria Teresa, como na maioria dos cursos da área de saúde, o enfoque maior é na doença em si. “Um dos desafios tem sido sensibilizar os discentes quanto à importância do SUS para toda a população brasileira, como uma grande conquista de cidadania, apontar as inúmeras possibilidades do sistema e contribuir para incentivar a atitude de defesa do SUS, tão ameaçado atualmente”, reflete.

Segundo ela, ao formar profissionais com base nos princípios do SUS, haverá melhor qualificação para atender as diferentes oportunidades de trabalho. “A fonoaudiologia vem revelando seu potencial no âmbito do SUS, mas seu papel e sua contribuição ainda carecem de maior visibilidade”, enfatiza, ao relembrar a edição 104 de Radis que abordou o “SUS que não se vê”. “Tenho orgulho de ser trabalhadora do SUS desde 1990. Nos últimos 20 anos, exerço a profissão numa cidade do interior de São Paulo, com 96 mil habitantes, que conta com uma equipe de 13 fonoaudiólogas”, destaca. Entre os desafios para o exercício da profissão, Maria Teresa ainda aponta o desconhecimento e as barreiras para o acesso. “Apesar dos avanços, observa-se dificuldade de acesso da população aos serviços fonoaudiológicos e parte dos usuários e profissionais de saúde não conhece a amplitude das ações dessa área”, comenta.

Maria Teresa explica que o fonoaudiólogo é um profissional fundamental para a reabilitação na área de deficiência auditiva, seja com aparelhos de amplificação, implante coclear, libras ou outras propostas, e na assistência a pessoas com necessidades especiais. “Em todas as condições, o desenvolvimento da linguagem, da fala, da audição e outros aspectos da comunicação humana são fundamentais para a qualificação do cuidado e evolução do caso”, completa. Na Atenção Especializada, esses profissionais podem atuar em Centros de Atenção Psicossocial (Caps), em ambulatórios de Saúde do Trabalhador, em Centros de Referência para Idosos e em Centros Especializados de Reabilitação (CER), voltados para pessoas com deficiência permanente ou temporária.

Reconhecimento e afirmação

Também para a presidente do Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa), Thelma Costa, um dos grandes desafios para o exercício profissional é a falta de conhecimento dos gestores sobre o que faz um fonoaudiólogo no SUS. “Existe a ideia de que o fonoaudiólogo só atende o paciente, com ênfase na Atenção Especializada. Mas também é importante sua presença na Atenção Básica, fazendo prevenção e promoção de saúde”, pontua. Segundo ela, a profissão — que já completou 36 anos de reconhecimento — inseriu-se primeiro em algumas áreas da saúde pública. “O problema é que historicamente o ‘fono’ acabou indo para o consultório particular, pela falta de oportunidades de concursos públicos no SUS”, acrescenta. Para Thelma, essa realidade começou a mudar nos últimos anos, mas ainda assim com maior ênfase em contratar pessoal para a Atenção Especializada.

No Brasil, existem atualmente 79 cursos de graduação em fonoaudiologia e 12 especialidades reconhecidas pelo CFFa. Segundo Thelma, um dos desafios é garantir a oferta de estágios já desde o primeiro semestre, como é preconizado — muitos desses cursos são de faculdades particulares, que com frequência encontram dificuldade para inserir o aluno em um estágio no SUS. “O aluno tem uma formação teórica, mas a vivência prática acaba sendo prejudicada por falta de oportunidades de estágio”, ressalta. Também é necessário, segundo ela, incentivar o contato com outras áreas, já que o “fono” tem um perfil de atuação multiprofissional.

Para Patrícia Fernandes Rodrigues, fonoaudióloga que atua há 8 anos no SUS e hoje é gerente de um Centro Especializado de Reabilitação (CER), na região da Penha, em São Paulo, ainda há muito a avançar na oferta de serviços. “É preciso repensar a Atenção Básica, em aumentar o número de profissionais. A Atenção Especializada está bem acolhida, está funcionando muito bem, porém na Atenção Básica existe uma fila de espera muito grande”, avalia, a partir da realidade de sua região. O CER, instituído a partir de 2013 pelo Ministério da Saúde, é voltado para a reabilitação de pessoas com deficiência. “Se uma criança faz o teste da orelha na maternidade e ele falha, ela vem pra gente para fazer os exames complementares. Ao identificar a perda auditiva permanente, ela precisa ter indicação de aparelho auditivo e terapia”, relata Patrícia, que também é especialista em audiologia e conselheira no Conselho Regional de São Paulo.

Outra questão é ampliar a formação e a presença de profissionais no Norte e Nordeste do país. “Nos últimos 15 anos, a gente teve uma abertura muito grande de cursos na região Norte e Nordeste. Antigamente o aluno vinha dessas regiões para fazer uma formação no Sul e Sudeste e muitos não voltavam”, aponta Thelma, ao destacar que com a criação de novos cursos — principalmente em universidades federais — abriu-se a possibilidade dos profissionais se formarem em sua região de origem. Segundo o registro nos conselhos regionais — requisito para o exercício profissional —, existem no Brasil 45.390 fonoaudiólogos registrados até dezembro de 2017. Ainda assim, somente o estado de São Paulo tem mais que o triplo de profissionais (15.547) que todo o Norte do país, Goiás e Distrito Federal juntos (4.637). A “fono” Taíssa Luna — que fez o caminho inverso, do Rio de Janeiro para Boa Vista — ressalta que o contato com outras realidades culturais e profissionais ajuda na formação de quem precisa desenvolver um olhar e um cuidado ampliados.

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Autor:

Luiz Felipe Stevanim

Fonte: Revista Radis - http://www6.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/184/reportagens/muito-mais-do-que-voz

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